
O psicólogo Rodrigo Toledo analisa como longevidade, sucessões lentas e empresas mais enxutas estreitam oportunidades, levando uma geração à culpa e ao adoecimento enquanto busca melhorar a performance
Baby boomers, geração X, millennials e geração Z convivem hoje nas mesmas organizações. Alguém pode entrar aos 20 e poucos anos ao lado de profissionais ativos aos 70 ou 80. A pergunta incômoda é simples: o que acontece quando a vida profissional se alonga, mas a sucessão não acompanha o mesmo ritmo?
O contraste histórico dimensiona a mudança. Em 1940, quando o Brasil avançava em sua industrialização, urbanização e infraestrutura, a expectativa de vida ao nascer era de 45,5 anos. Em 2024, chegou a 76,6. Quem alcança hoje os 60 pode esperar viver mais 22,6 anos. Naquele processo, fábricas, bancos, estradas, departamentos e camadas gerenciais precisavam ser construídos. O país crescia precisando de trabalhadores. Havia, literalmente, novas cadeiras sendo criadas. Em 1985, a indústria de transformação respondia por 26,2% do emprego formal brasileiro; em 2024, por 14,8%.
Hoje, o outro extremo ajuda a entender a mudança. Uma empresa de tecnologia pode valer bilhões e alcançar milhões de consumidores com estrutura muito mais enxuta do que as grandes indústrias do século passado. A riqueza continua sendo criada. O número de cadeiras não precisa crescer junto. Em 2026, 60% dos CEOs brasileiros ouvidos pela consultoria PwC disseram esperar menos profissionais em início de carreira nos três anos seguintes por efeito da inteligência artificial. Outro levantamento mostrou que 19,3% dos CEOs não planejam parar de trabalhar, 6,9% pretendem seguir depois dos 80 e só 16,1% têm sucessor preparado.
No meio disso está uma geração que recebeu uma promessa: estude, trabalhe, qualifique-se, entregue mais e o resultado virá. Só que competência, esforço e qualificação já não garantem o mesmo avanço, no mesmo tempo.
A moradia acrescenta outra pressão. Em São Paulo, 33% de quem vivia de aluguel comprometia 30% ou mais da renda com locação em 2022. Para uma geração que associou vida adulta a carreira, casa própria e estabilidade, trabalhar e ainda consumir uma parcela tão grande da renda apenas para manter a vida funcionando produz uma sensação difícil de ignorar: esforço nem sempre se transforma em avanço na mesma velocidade.
No consultório ninguém chega falando em sucessão corporativa, transformação demográfica ou mudança na estrutura produtiva. Chega dizendo: “eu devia estar melhor aos 38”, “eu fiz tudo o que precisava fazer e continuo no mesmo lugar” e “parece que todo mundo avançou, menos eu”.
O fenômeno coletivo chega ao consultório em primeira pessoa
Para o psicólogo clínico Rodrigo Toledo Potechi, pós-graduado em Saúde Mental pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, é aí que um problema externo pode começar a ser vivido como defeito íntimo.
“Não estamos diante apenas de uma geração mais ansiosa ou menos tolerante à frustração. É uma geração que recebeu uma promessa de mobilidade baseada em estudo, trabalho e desempenho, mas chegou à vida adulta num mundo em que posições e oportunidades circulam de outra maneira. Diante desse descompasso, tenta compensar performando cada vez mais. Em algum momento, corpo e mente cobram a conta”, afirma Toledo.
Mais horas. Mais cursos. Mais produtividade. Mais academia. Mais networking. Mais café. Mais estimulante. Menos sono.
Em ambientes de alta exigência, descansar produz culpa e estar cansado parece incompetência. Cafeína em excesso, álcool para desacelerar, drogas e psicoestimulantes sem indicação clínica podem entrar para sustentar rendimento. A lisdexanfetamina, por exemplo, tem usos médicos legítimos. O problema é quando vira ferramenta para transformar exaustão em produtividade.
Em pesquisa com universitários usuários de psicoestimulantes, 75% relataram o neuroaprimoramento como finalidade. O dado expõe uma lógica: quando não consigo acompanhar a exigência, tento aumentar artificialmente minha capacidade de acompanhá-la.
Até que aparecem ansiedade, insônia, irritabilidade, compulsões, episódios depressivos e burnout. Em 2025, a Previdência concedeu 546.254 benefícios por incapacidade temporária ligados a transtornos mentais e comportamentais, 15,66% a mais que no ano anterior.
“Uma geração inteira aprendeu que, se o resultado não veio, faltou alguma coisa nela: qualificação, disciplina, produtividade, resiliência. Então, aumenta a dose de tudo. Talvez estejamos tentando corrigir indivíduos para adaptá-los a uma equação que também mudou fora deles”, completa Rodrigo Toledo.
Seria simplista concluir que a longevidade explica esse adoecimento ou transformar trabalhadores mais velhos em culpados. Há um paradoxo importante: o mesmo mercado que prolonga carreiras também envelhece seus profissionais cedo demais. Segundo levantamento da PwC Brasil em parceria com a FGV (Fundação Getulio Vargas), 86% das empresas pesquisadas não tinham planos de carreira para profissionais acima dos 40 anos.
É possível encontrar numa mesma estrutura um profissional de 28 anos tentando entrar, um de 42 tentando ascender, um de 52 tentando não ser descartado e outro de 70 sem qualquer intenção de sair.
Nenhum deles precisa ser transformado em culpado. Talvez o problema seja termos prolongado a vida sem redesenhar, na mesma velocidade, a forma como as gerações coexistem no trabalho. Acrescentamos décadas à vida, mas não décadas à pirâmide das empresas.
A longevidade não explica tudo. Tecnologia, custo de vida, transformações econômicas e histórias individuais também pesam. E seria um erro transformar qualquer uma dessas mudanças em inimiga. Viver mais é uma conquista. Produzir mais com menos recursos também é desenvolvimento. A tecnologia abriu possibilidades que seriam impensáveis poucas décadas atrás. O problema começa quando aprendemos a tornar empresas, processos e estruturas cada vez mais rápidos, enxutos e eficientes, mas ainda não descobrimos como fazer caber mais pessoas, por mais tempo, dentro desse novo desenho.
Talvez esse seja um dos grandes desafios do trabalho nas próximas décadas. Não precisamos escolher entre longevidade e renovação, entre experiência e juventude, entre tecnologia e trabalho humano. Precisamos descobrir como todas essas coisas podem coexistir. Como preservar experiência sem impedir circulação? Como ganhar eficiência sem reduzir pessoas a desempenho? Como viver e trabalhar por mais anos sem transformar cada dificuldade de avanço em inadequação pessoal?
A resposta está na explicação de Rodrigo Toledo. “No fim, desenvolvimento deveria ampliar possibilidades humanas, não apenas abreviar processos. Se estamos vivendo mais, precisamos encontrar formas de fazer essas vidas caberem num mundo profissional cada vez mais enxuto, automatizado e competitivo. Pessoas de 28, 42, 52 ou 70 anos continuam sendo pessoas antes de serem recursos, cargos ou indicadores de produtividade”, ressalta.
O profissional ainda complementa dizendo que “cuidar da saúde mental também passa por reconhecer isso: distinguir o que pertence ao sujeito, o que pertence ao mundo em que ele vive e o que ainda pode ser construído entre os dois, sem transformar em culpa individual aquilo que também nasce de um problema estrutural, coletivo e social”, destaca.
Rodrigo ainda reforça: “o futuro não precisa ser culpado pelo nosso adoecimento. Mas, se quisermos continuar avançando, teremos de aprender a construir um futuro em que todos nós consigamos caber”, finaliza o psicólogo.



