Geral

Antes do uniforme, a selva: o dia em que futuros comissários aprendem a sobreviver

No centro de treinamento do CEAB, alunos atravessam práticas de sobrevivência na selva, exercícios no mar e combate ao fogo num único dia. É a parte da formação que o passageiro nunca vê, e a que define a profissão

CEAB oferece treinamento com práticas de sobrevivência em selva.
ouça este conteúdo
Leitura pelo navegador

No centro de treinamento do CEAB, alunos atravessam práticas de sobrevivência na selva, exercícios no mar e combate ao fogo num único dia. É a parte da formação que o passageiro nunca vê, e a que define a profissão

A imagem pública do comissário de voo cabe num corredor de aeroporto: uniforme alinhado, mala de rodinha, sorriso de embarque. A formação que sustenta essa imagem, não. Antes de servir a primeira bandeja, o aluno de comissário passa por um dia que mais parece roteiro de reality de sobrevivência: mata fechada, água, fogo real e a instrução de que, se tudo der errado a dez mil metros, quem organiza a saída é ele.

O contraste não é acidente, é a essência da profissão. O comissário existe, do ponto de vista regulatório, como profissional de segurança: a função nasceu para conduzir evacuações, prestar primeiros socorros e gerenciar emergências a bordo. O serviço, parte visível do trabalho, é o que acontece nos voos em que nada sai do previsto, ou seja, em quase todos. A formação é desenhada para o voo raro em que algo sai.

No CEAB, escola de aviação com 27 anos de mercado, essa parte da formação tem endereço próprio: um centro de treinamento onde as práticas de sobrevivência em selva, os exercícios no mar e o combate ao fogo acontecem num único dia, conduzidos por instrutores com experiência de mercado aéreo. O aluno aprende a improvisar abrigo, a se comportar na água com os equipamentos da aeronave e a extinguir princípios de incêndio, além do treinamento de primeiros socorros que atravessa o curso.

“O passageiro conhece o comissário do serviço de bordo. A companhia aérea contrata o comissário da emergência. Nossa formação existe para esse segundo profissional, o primeiro é consequência”, diz Salmeron Cardoso, diretor e CEO do CEAB.

▶ Vídeo: treinamento prático de sobrevivência na selva do CEAB – https://youtu.be/-4cdQ90vaSw

A régua rigorosa encontra um mercado em expansão, e em mais de uma frente. A LATAM projetou quase mil vagas de comissário para 2026 e antecipou seleções, depois de contratar mais de 700 comissários e pilotos em 2025. A Gol mantém cadastro externo aberto para a função, com inscrições até dezembro de 2026, acionado conforme a abertura de turmas. A Emirates recruta no Brasil por meio de agência oficial, com triagem em São Paulo marcada para outubro. O setor trata a escassez de tripulantes como risco concreto do ano. Nesse cenário, a formação com prática de emergência deixa de ser diferencial de currículo e vira critério de contratação: a companhia que disputa passageiro não disputa apenas simpatia de cabine, disputa capacidade de resposta.

Há também um efeito silencioso sobre quem embarca. As estatísticas fazem da aviação o modo de transporte mais seguro que existe, e parte dessa segurança viaja em pé, no corredor, servindo café. Cada tripulante daqueles passou pela selva, pelo mar e pelo fogo antes de passar pelo espelho do uniforme.

Fica a pergunta que o passageiro raramente se faz entre o embarque e o pouso: se o voo mais tranquilo da sua vida é operado por alguém treinado para o pior dia possível, quanto do conforto de voar é, no fundo, obra desse treinamento que ninguém vê?