
Há negócios que nascem de uma oportunidade de mercado. Outros surgem quando um empreendedor consegue enxergar potencial justamente onde poucos estão olhando. A trajetória de Pedro Ramalho à frente do The Eye Motel se aproxima mais da segunda categoria.
Ao assumir o empreendimento, o empresário encontrou um negócio que precisava ser reconstruído não apenas fisicamente, mas também em sua operação, comunicação e posicionamento.
O desafio, porém, acabou revelando uma oportunidade maior: transformar uma empresa tradicional em uma marca de experiência e, a partir dela, repensar a própria relação do público com a motelaria.
Para Pedro, empreender no Brasil exige muito mais do que capital e uma boa ideia. Em um ambiente marcado por carga tributária, burocracia, custos operacionais, mão de obra e mudanças aceleradas no comportamento do consumidor, a capacidade de adaptação passou a ser um ativo estratégico. “Empreendedorismo deixou de ser apenas gestão.
Hoje envolve também comunicação, experiência, comunidade e capacidade de antecipar comportamento”, resume.

Na sua leitura, o consumidor contemporâneo não quer apenas comprar um produto ou contratar um serviço: quer entender a história por trás da marca, reconhecer seus valores e, em alguma medida, sentir-se parte dela.
Foi justamente essa lógica que norteou a transformação do The Eye. Em pouco mais de um ano, segundo o empresário, o negócio registrou um crescimento expressivo de faturamento e ampliou sua presença digital, alcançando inclusive pessoas que tradicionalmente não se identificavam como consumidoras de motéis.
A estratégia passou por uma mudança de percepção: em vez de tratar o estabelecimento apenas como hospedagem, Pedro passou a trabalhar arquitetura, ambientação, iluminação, gastronomia, música, conteúdo e atendimento como elementos de uma mesma experiência.
Até os bastidores ganharam protagonismo. Reformas, decisões, dificuldades e mudanças passaram a ser compartilhadas com o público, criando uma espécie de comunidade em torno da construção da marca.
A visão, entretanto, não termina nas suítes. Novos espaços inspirados em destinos e culturas diferentes, expansão gastronômica e projetos que aproximam música, audiovisual, moda e lifestyle fazem parte dos próximos movimentos. Um deles traduz especialmente bem essa estratégia: um álbum autoral inspirado nas suítes do motel, atribuindo também uma identidade musical a cada ambiente.
É dentro dessa visão mais ampla que Pedro também começa a olhar para a Motelovers de outra maneira. A iniciativa, que nasceu conectada ao universo da motelaria, pode futuramente ganhar novos significados e até se transformar em uma marca própria. O empresário conta que já pensa em diferentes possibilidades para o nome, mas prefere preservar as ideias por enquanto. “Estou pensando muito sobre a Motelovers se tornar uma marca. Já tenho várias ideias, mas ainda é cedo para compartilhar”, afirma.
A possibilidade revela uma característica importante da visão de Pedro: antes de transformar uma ideia em produto ou negócio, existe um período de observação, construção e entendimento de como aquele conceito pode se conectar com o público. No caso da Motelovers, a intenção é justamente não antecipar etapas e permitir que o projeto encontre seu formato no momento certo.
A lógica empresarial de Pedro parte de uma premissa simples, mas pouco explorada: marcas fortes não precisam necessariamente competir pelo menor preço quando conseguem criar algo difícil de comparar. Em vez de concentrar a estratégia apenas em eficiência operacional, o empresário aposta em identidade, narrativa e pertencimento como ferramentas de diferenciação.
“Eu sempre penso: por que alguém deveria prestar atenção nisso? Por que deveria lembrar dessa marca? Por que deveria falar sobre ela?”, explica. A pergunta revela uma visão que aproxima empreendedorismo e comunicação: antes de transformar atenção em faturamento, é preciso conquistar relevância. Para ele, ouvir o público e mostrar processos também faz parte da construção de valor. O consumidor deixa de ser apenas alguém que compra e passa a acompanhar a evolução do negócio.
Essa perspectiva ajuda a explicar por que a presença digital ocupa espaço tão importante em sua estratégia. Ao abrir os bastidores do The Eye, Pedro transformou parte da própria construção empresarial em conteúdo. O que poderia ser apenas uma reforma passou a funcionar também como narrativa, criando expectativa, identificação e curiosidade em torno da marca.
O movimento acompanha uma mudança mais ampla no comportamento do consumidor. Na visão do empresário, a motelaria sempre esteve presente na cultura brasileira, mas durante décadas foi comunicada principalmente a partir do tabu. A oportunidade, portanto, estaria em ampliar a conversa e incorporar elementos que já fazem parte de outros segmentos de consumo, como design, gastronomia, entretenimento, tecnologia, audiovisual e lifestyle.
É nesse ponto que a estratégia deixa de ser apenas uma história de recuperação de um empreendimento e passa a ganhar uma dimensão de mercado. Pedro não fala somente em fazer o The Eye crescer, mas em contribuir para a transformação de uma categoria inteira.
O próximo capítulo dessa trajetória não está necessariamente restrito à motelaria. Hospitalidade, entretenimento, moda, gastronomia, audiovisual e tecnologia estão entre os segmentos que despertam o interesse do empresário, especialmente quando existe uma conexão entre produto, narrativa e comunidade.
A Motelovers pode fazer parte desse movimento no futuro. Hoje, porém, o projeto está mais próximo de uma ideia em construção do que de uma marca pronta. Pedro prefere manter as possibilidades em aberto, observando como o conceito pode evoluir antes de definir seus próximos passos.
No longo prazo, o objetivo é ainda mais ambicioso. O empresário quer construir empresas capazes de sobreviver independentemente de sua imagem pessoal, mas que preservem a visão responsável por sua criação. A preocupação com legado aparece ao lado da preocupação financeira: mais do que negócios que faturam, Pedro quer construir marcas que permaneçam.
Para isso, também pretende aprofundar estudos sobre comportamento das novas gerações e entender como mudanças culturais estão influenciando a hospitalidade e a própria percepção sobre a motelaria. É uma abordagem que coloca dados, comportamento e cultura ao lado da gestão tradicional.
No fim, talvez o aspecto mais interessante da trajetória de Pedro Ramalho esteja justamente na mudança de escala de sua ambição. O ponto de partida foi um estabelecimento que precisava ser reconstruído. O projeto que se desenha agora é maior: transformar uma empresa em marca, fortalecer uma comunidade e, a partir dessas experiências, identificar quais novos caminhos podem surgir.
“O The Eye começou como a transformação de um motel. Hoje eu enxergo como parte da transformação de uma categoria inteira”, define. E é nessa mudança de perspectiva que está a principal aposta do empresário: perceber que, em um mercado cada vez mais disputado por atenção, experiência e relevância podem valer tanto quanto o produto que está sendo vendido.



