A boa liderança nunca confunde circunstâncias com competência

Uma experiência vivida há 26 anos mostra como reconhecer competência e potencial antes das circunstâncias continua sendo uma das decisões mais estratégicas para organizações que desejam fortalecer sua cultura, desenvolver talentos e gerar resultados sustentáveis


A promoção de uma executiva ao cargo de CFO quando estava grávida de nove meses repercutiu recentemente nas redes sociais e reacendeu um debate que vai além da maternidade: o papel da liderança na construção de ambientes em que decisões de carreira sejam pautadas por competência, desempenho e potencial, e não pelas circunstâncias da vida.


Para Andrea Campos, executiva com mais de 30 anos de experiência em grandes organizações, essa discussão não é nova. Há 26 anos, quando estava grávida de sua primeira filha, foi chamada para uma reunião acreditando que conversaria sobre a licença-maternidade. Em vez disso, recebeu uma promoção.


Ao demonstrar surpresa e questionar se aquele era o momento adequado, ouviu da diretora uma frase que se tornou um marco em sua trajetória profissional: “Você estar grávida é uma circunstância. Uma circunstância linda, por sinal.”


“A boa liderança nunca confunde circunstâncias com competência. Gravidez é uma condição temporária. Competência, resultados e potencial são atributos profissionais que não desaparecem por causa dela”, afirma Andrea.


Segundo a executiva, aquela decisão deixou uma mensagem que ultrapassou a promoção em si.
“Minha promoção não aconteceu porque eu seria mãe, nem apesar disso. Ela aconteceu pelas entregas que eu já vinha realizando e pelo potencial que minha liderança enxergava para o futuro.”


Ao longo de 28 anos na mesma organização, Andrea construiu sua carreira até a diretoria, participou de programas nacionais e internacionais de desenvolvimento executivo e conciliou a evolução profissional com a maternidade de três filhos. Para ela, essa trajetória foi possível porque esteve inserida em uma cultura organizacional que valorizava desempenho acima das circunstâncias pessoais.


“Não significa que tenha sido fácil. Como muitas mulheres, organizei consultas médicas no horário de almoço, programei meu parto à noite para reduzir impactos na rotina profissional e mantive meu compromisso com as entregas. A diferença é que trabalhei em uma empresa que nunca tratou a maternidade como perda de capacidade profissional.”


Entre as práticas que marcaram sua experiência, Andrea destaca políticas voltadas ao desenvolvimento de lideranças femininas e uma decisão adotada pela presidência da empresa: manter integralmente o pagamento do bônus anual das colaboradoras durante a licença-maternidade, sem qualquer desconto proporcional ao período de afastamento.


“A mensagem era simples e poderosa: alguns meses de licença não apagam anos de dedicação, resultados e compromisso. Esse tipo de decisão revela, na prática, quais são os valores de uma organização.”


Apesar dos avanços, Andrea observa que episódios como o da recente promoção de uma gestante ainda recebem destaque justamente porque permanecem sendo tratados como exceção.
“O problema não é uma grávida ser promovida. O problema é isso ainda virar notícia.”


Para a executiva, organizações que desejam fortalecer sua cultura e reter talentos precisam compreender que liderança exige visão de longo prazo.


“Grandes líderes enxergam pessoas pelo conjunto de suas entregas e pelo potencial que possuem para gerar resultados futuros. Quando uma circunstância temporária pesa mais do que uma trajetória construída ao longo de anos, perde a profissional, perde a empresa e perde a cultura organizacional.”


Ela também chama atenção para um impacto que ultrapassa os indicadores corporativos. “As mulheres que ocupam posições de liderança também formam famílias, educam filhos e ajudam a construir a próxima geração de profissionais. Quando uma empresa investe nelas, fortalece não apenas seus resultados, mas também a sociedade.”


Para Andrea, o verdadeiro avanço será quando promoções durante a gestação deixarem de ser tratadas como exceção.


“Meu desejo é que esse tipo de notícia deixe de chamar atenção. Não porque tenha perdido importância, mas porque promover uma profissional competente, independentemente da fase da vida em que ela esteja, finalmente terá se tornado algo absolutamente natural.”


Sobre Andrea Campos


Executiva com mais de 30 anos de experiência em grandes organizações, Andrea Campos possui atuação multidisciplinar nos setores de varejo, consultoria, tecnologia e telecomunicações. Também é diplomata civil humanitária, articulista e desenvolve iniciativas voltadas ao fortalecimento da sociedade civil, cidadania e causas humanitárias.


LinkedIn: https://linkedin.com/in/andréa-campos-b5658926

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