Marketing em Angola #1 – Ambiente de Marketing

Quem me acompanha além do blog, principalmente pelas mídias sociais, sabe que este mês tenho tido a grata satisfação de conhecer um novo continente (África) e um novo país. Desembarquei em Angola numa missão de “espalhar o marketing”, através de aulas para o curso de Mestrado em Gestão da Faculdade de Economia da Universidade Agostinho Neto, maior instituição universitária do país, numa parceria com o Núcleo de Pós-Graduação em Administração da UFBA. Assim, tenho passado essas semanas conhecendo o país de uma forma mais imersa na realidade cultural e social, não fazendo os célebres passeios turísticos que a gente encontra nos roteiros oficiais. O que tem me dado subsídios para uma boa análise da economia, do comércio e dos serviços do país, bem como também para as aulas e pesquisas que realizamos na universidade.


Neste primeiro post, gostaria de compartilhar um pouco do que tenho visto no país, enfatizando as diferenças para o Brasil, nestes cenários citados.

Generalidades

Baía de Luanda, Avenida Marginal. E, ao fundo, as inúmeras gruas.

Angola é um país que está em construção. Luanda e cidades circunvizinhas são um canteiro de obras. Fiquei impressionado com a quantidade de gruas de construção civil espalhadas pela cidade. Isso indica o porque que grandes empreiteiras brasileiras atuando no país, com destaque para a Odebrecht, com mais de 30 anos no país. A empresa baiana agora diversifica seus negócios em Angola, investindo também em agroindústria, petróleo, gás e mineração. De longe, é a empresa que mais emprega no país, com mais de 24 mil empregados, perdendo apenas para os cargos públicos. Fica clara a importância da Odebrecht para Angola e ela não se cansa de demonstrar isso, através de campanha publicitária enfatizando a ligação emocional entre o povo angolano e a empresa.

Uma coisa que ainda também está “em construção” é a própria vida urbana. Fiquei espantado com a quantidade de lixo nas ruas, principalmente nos bairros mais populares, em localidades como Benfica, Samba e outros pontos famosos de Luanda. As autoridades estão preocupadas, pois vejo uma campanha social forte sobre o tema, tanto nas ruas, quanto no rádio. Mas ainda é uma questão cultural e vejo que será um trabalho de geração(ões).

Os “Candongueiros”

Os engarrafamentos são gigantescos e, na hora do rush, pioram consideravelmente. Estou hospedado na Cidade do Kilamba, distante 40km do centro de Luanda. Num dia ruim, levo 1h40 para chegar ao destino. É interessante que há diversos motivos para o trânsito parar, num ar de civilidade urbana que não vemos no Brasil. Uma pessoa atravessando uma passadeira (faixa de pedestres) pode parar o tráfego inclusive da via expressa. O entrar e saltar de passageiros das incontáveis “candongas” (o transporte público todo é realizado por essas vans, normalmente da Toyota, pintadas de azul e branco), também prejudica muito a fluidez do trânsito.

A comida é ótima. Achei muito parecida com a comida do norte do Brasil. Os pratos típicos como o Funge e a Muamba, me lembraram dos tucupis e tacacás da vida. Os angolanos poderiam trabalhar melhor com isso, pois tais comidas típicas não são tão facilmente encontradas por um turista, por exemplo, a não ser que seja em locais onde paira a dúvida sobre a higiene.

Falando nisso, creio que há de se fazer um trabalho muito grande sobre a questão do turismo, principalmente para o estrangeiro. Vejo um potencial tremendo para o turismo a nível internacional. Angola ainda é um “gigante adormecido” nesse ponto, e creio que, mesmo sendo um destino conhecido, pode-se fazer muito mais. Exemplos africanos, como o da vizinha Namíbia e da África do Sul, podem ser usados como benchmarking.

Povo

O povo angolano é demais. Povo legal, hospitaleiro, que adora cumprimentar e bater um bom papo. Sentem-se muito próximos aos brasileiros, o que fez eu ser mais bem tratado ainda! Fazem você se sentir em casa.

Adoram futebol. Além dos times locais (destaque para o Petro de Luanda e o 1º de Agosto), acompanham MUITO o futebol europeu. Sabem tudo da galera de lá. Do Brasil, não acompanham muito, mas fiquei impressionado com o número de camisas do Flamengo que vi aqui! Disparadamente maior do que qualquer outro time (com exceção do 1º de Agosto), inclusive da Europa!

Angolanas e seus lindos cabelos

O povo é muito estiloso! Adoram se vestir bem e de forma bem singular, única. As mulheres são um caso a parte. Como são estilosas! Em tudo! Dou destaque para os cabelos das mulheres. Diferente do que vejo no Brasil, as mulheres aqui tem infinitos (infinitos mesmo!) modelos de cortes, penteados, cores, jeitos. É simplesmente lindo e sensacional! E a roupa é relativamente barata (falo disso num próximo post).

Gostam muito de festas. Nisso se parecem bem com o povo da Bahia! No horário nobre da televisão, os comerciais são quase que na sua totalidade, de eventos sociais, festas, baladas ou produtos ligados a isto. Realmente são apaixonados pela diversão, e diversão em conjunto.

Sociedade

É fácil perceber que há um gap de classes sociais em Angola. Há localidades e pessoas muito pobres e gente muito (mas muito mesmo!) rica. É perceptível isso ao passar por bairros diversos. Andar por Talatona é como andar em qualquer cidade moderna do mundo, com prédios e casas de alto padrão e de muito bom gosto (lá se encontra o Belas Shopping, grande shopping da capital). Já em outras localidades, vê-se os ambulantes aos montes (falarei deles em outro post), casas de baixa qualidade e dezenas de ruas sem asfalto, fazendo com que a poeira amarelada impere sobre boa parte da cidade.

Há um ranço com os portugueses, chamados “carinhosamente” de portugas. E estes andam sempre meio prepotentes pela rua. Vi muito pouco portugueses e angolanos em momentos de descontração. Há uma desconfiança também com os chineses, que tem invadido o país para gerenciar grandes projetos de construção civil, como a Cidade do Kilamba.

Numa aula onde apresentava os dados de classes sociais brasileiras, meus alunos falaram que o que ganha um cidadão de classe A2 no Brasil (acima de R$ 10 mil/mês) é classe B em Angola (não vi dados oficiais de Angola). Entendi a fama de Luanda ser uma cidade cara.

Carros

Trânsito em Luanda. Me impressionou a quantidade de carros que no Brasil são de alto padrão.

Aqui tem muitos carros. Angolanos adoram carros, talvez num nível maior do que o brasileiro. Adoram mexer nos carros (e que carrões!), deixá-los sempre brilhando e tinindo (o que é um desafio enorme, pelo tamanho de poeira que existe aqui). Mas pela intensa falta de água, lavam os carros sempre com um baldezinho de água (precisamos aprender com eles).

E, diferente do Brasil, o mercado angolano é dominado pela Hyundai. O que mais se vê aqui é Elantra (inclusive inúmeros taxis), carro considerado caro no Brasil. Além disso, a montadora coreana tem modelos não existentes no Brasil, como o i10, i20 e Accent, além do i30, Tucson (o nosso ix35), Sonata, Azera, SantaFé, VeraCruz e Veloster. Também se vê muitos carros da Kia (Rio e  Sportage se vê aos montes). Renault também tem uma parcela importante do mercado (Logan merece destaque, além da grande presença do Sandero e do Duster). Suzuki se especializou em carros populares, por isso também é vista aos montes. Nissan também. Toyota, só para carros grandes como Hilux, Fortuner (a nossa SW4) e Land Cruiser (inexistente no Brasil). Ford, só pickups grandes. Fiat, não vi nenhum. Volkswagen, só vi Touareg. Chevrolet só carros mais baratos (com exceção da Captiva), como Sonic. Além de ver de forma muito mais presente aqui do que no Brasil, marcas como Jeep (Grand Cherokee), Lexus, Porsche e Jaguar, por exemplo.

Os carros são mais baratos, relativamente, do que no Brasil. Um Kia Sportage 0km é facilmente comprado em Angola, à vista, por US$ 35mil. Elantra, US$ 26mil. Logan (fabricado no Brasil), US$ 18mil. Isso tudo em um país que não tem nenhuma fábrica de automóveis. A grande maioria dos carros são provenientes de importações via Dubai, localidade com vôos diretos de Luanda por mais de uma empresa aérea, e que tem se tornado um ponto de visita grande para os angolanos, inclusive de classe média.

Outros pontos

Para as empresas e para o povo comum, Angola conseguiu um limiar entre a burocracia e o “deixa pra lá”. Para algumas coisas, como abertura de empresas, há burocracias extremas, o que faz com que muita gente tenha negócios não regulares ou não registrados. E que também não tem grande fiscalização. Questões relativas à receita e arrecadação de impostos também são aparentemente maleáveis (segundo meus alunos, é para manter as possibilidades de corrupção mais tranquilas). Mas se você é pego, há complicações muito fortes.

Similar ao Brasil, as filas são homéricas. Testemunhei algumas bem grandes por aqui.

Nunca vi um lugar com tantos bancos! É impressionante o número de marcas e o número de agências. Falarei disso, com mais detalhes, em um próximo post.


Enfim, estas são as primeiras impressões do Ambiente de Marketing angolano. Qualquer empresa que aqui quiser se instalar, tem que passar por estas questões culturais e sociais, base do estudo ambiental de Marketing em qualquer localidade. Claro que vai muito além do que coloquei. Mas como disse, estes são meus destaques.

Tenho cada vez mais me impressionado positivamente com o país. Clima agradável e pessoas maravilhosas. Mas as questões de marketing, bem como de administração como um todo, ainda são bem incidentais e precárias. Há de se fazer um enorme trabalho por aqui e fico feliz de estar presente neste momento.

No próximo post, falo um pouco sobre a relação Brasil x Angola, incluindo as questões comerciais e de marketing.

Anúncios

Copa do Marketing #1 – Uniformes Puma e a Diferenciação

Por Mirela Portugal, Revista Exame

De todos os uniformes das seleções da Copa, nenhum alcançou um sucesso que salta aos olhos como os fabricados pela marca Puma. O estilo escolhido para as peças, chamado “slim fit” – o caimento justo, colado ao corpo dos jogadores – chamou atenção do público e transformou as camisas nas mais comentadas do mundial. Foi uma virada de mesa para a não-patrocinadora da FIFA, que lutava na guerra por visibilidade no torneio contra Nike e Adidas, líderes do setor de artigos esportivos.

A estratégia que roubou a cena não é novidade, mas não é fácil: apostar em produtos originais. A preocupação era, desde o princípio, desenvolver peças que se sobressaissem, explica João Diago, responsável pela área de futebol da Puma no Brasil. Ainda que tenha sido o lado fashionista das roupas a destacá-las, a marca afirma que a motivação do visual apertado é tecnológica. As peças possuem um dispositivo que comprime e massageia certos músculos durante a partida, as chamadas fitas ACTV.

Mario Balotelli, da Itália

Uma vez em campo, as camisas fizeram barulho espontâneo e os estoques começaram a desaparecer, conta Diago. “A meta era entregar um produto de alta performance para nossos jogadores. O que talvez tenha sido uma grata surpresa foi esse apelo para os consumidores, principalmente o público feminino, por conta do visual que deixou os jogadores fortes”, explica. A Puma não fala em números de vendas. “A receita fez sucesso porque, além de apostaram num produto forte, ele está sendo exibido para 3,5 bilhões de pessoas no mundo inteiro, tendo o Brasil como cenário. Até do ponto de vista esportivo há vantagens, porque impede que jogadores puxem os adversários”, analisa Clarisse Setyon, coordenadora do núcleo de marketing esportivo da ESPM.

A recepção positiva também resume a tendência que catapultou jogadores de futebol a ícones da moda. Entre tanquinhos e tatuagens, e a bordo de uma popularidade global, os atletas são habitualmente disputados por grifes que tentam se associar à sua imagem. “Tem ficado mais claro nos últimos anos que jogadores de futebol têm o porte corporal ideal para serem modelos de moda. É a matéria-prima perfeita para marcas com posicionamento fashion, como a Puma”, complementa Clarisse.

Não é novidade para a fabricante alemã se promover apostando em design. A identidade da marca é conhecida por misturar esporte, estilo de vida e moda. Outro exemplo na Copa de 2014 é o das chuteiras: todos os jogadores das 8 seleções vestidas pela Puma (Itália, Uruguai, Chile, Suíça, Costa do Marfim, Camarões, Gana e Argélia) entram em campo na Copa com uma chuteira de cada cor – um rosa e um azul.

Botafogo e TelexFree – Parceria ou Imagem Arranhada?

Publicado originalmente no site da Revista “ISTO É Dinheiro”. Matéria escrita por André Jankavski.

Dobradinha Botafogo-Telexfree mostra descuido de clubes com imagem
Por André JANKAVSKI
No início da segunda semana de janeiro/2014, o Botafogo acertou o patrocínio com a Telexfree, empresa acusada de pirâmide financeira, que estampará seu logo na camisa alvinegra até o fim de 2014. O anúncio gerou surpresa pelo fato da companhia estar impedida de atuar no País. Apesar de ser algo incomum, não foi a primeira vez que isso ocorreu no futebol brasileiro.

Em 2000, o Santos teve o apoio do Alpha Club, clube de turismo que oferecia descontos em hotéis no País e acusada do mesmo golpe da Telexfree. Mesmo encerrando as atividades em maio daquele ano, a companhia continuou na camisa da equipe paulista até o término da temporada. No fim de 2001, o Alpha Club foi condenado a ressarcir os seus sócios. “A necessidade de dinheiro faz os clubes pensarem apenas no montante”, afirma o consultor esportivo Amir Somoggi. “Eles esquecem o projeto e de como podem potencializar a parceria com as empresas.”

Além do caso do Santos, outras equipes brasileiras arriscaram seus mantos em ações polêmicas. No ano passado, o Paraná Clube utilizou o gancho de uma sexta-feira 13 para fazer a propaganda de um cemitério. Já seu arquirrival, o Coritiba, anunciou shows da cantora Cláudia Leitte e do grupo Skank em comemoração do seu centenário, em 2009. O problema é que os dois foram cancelados dias depois. Para o professor de marketing esportivo da PUC-RJ, os clubes esquecem que a camisa é o seu maior patrimônio. “Eles não entendem a publicidade negativa que essas ações podem gerar”, diz Luiz Léo.

Fonte importante
Os patrocínios nas camisas de futebol representam uma importante fonte de receita para os clubes brasileiros. De acordo com estudos de Somoggi, em 2012, os clubes brasileiros receberam R$ 523 milhões em patrocínios e publicidade, cerca de 17% do total arrecadado. As dívidas, no entanto, não param de subir e atingiram R$ 4,5 bilhões naquele ano.

Com um endividamento de R$ 613 milhões, o segundo maior do País, o Botafogo decidiu arriscar e aceitar o dinheiro da empresa americana. Os valores ainda não foram divulgados. “É compreensível o Botafogo aceitar, ainda mais com a interdição do estádio do Engenhão”, afirma Léo, da PUC-RJ. “Mas do ponto estratégico não foi a decisão mais inteligente.”

E o Botafogo vem percebendo isso com a repercussão negativa da parceria: o seu patrocinador principal, a empresa de bebidas Viton 44 já anunciou que não ficou contente com a escolha da Telexfree. Para completar, o clube ainda sofre com problemas dentro de campo com a aposentadoria do seu principal jogador e garoto-propaganda, o holandês Clarence Seedorf. “Se houvesse um termômetro para medir a imagem, a do Botafogo estaria bem afetada”, afirma Somoggi.

Não discuto se o original é a TelexFree Internacional ou Nacional (o que a fidedignidade ainda é uma dúvida longe de ser tirada). O que qualquer gestor de marketing ou de branding sabe de cor e salteado é que não dá pra uma organização que vive de imagem, como um time de futebol ou celebridade, se coligar ou se relacionar desta forma com outra organização que tem uma imagem arranhada desta forma. Associações de marca mal feitas derrubam o brand equity de muitas marcas. 

Nike e Umbro: Hospedeiro e Parasita

Dava para entender biologia ao se estudar o que a Nike fez com a Umbro. Ao anunciar recentemente que vai se desfazer da marca inglesa, por menos da metade dos US$ 582 milhões usados para a compra, a Nike mostrou como faz um grande parasita.

Dona da marca desde 2007, a Nike investiu na compra da concorrente para, na opinião de muitos, utilizar as suas vantagens competitivas no futebol, principalmente no futebol inglês. Além de ser um revide para a compra da Reebok pela Adidas (o que representou um baque pra Nike no mercado norte-americano). De certa forma, a empresa conseguiu capitalizar um pouco em cima desse cenário.

O intrigante é que no anúncio que mostrava o derradeiro destino da Umbro, a Nike estava vendendo a empresa por “foco nas atividades principais da empresa”. Difícil entender… Umbro é uma marca tradicional, que detinha uma relativa fatia de mercado e entregou para a Nike times e seleções tradicionais do futebol europeu, com toda a sua torcida de quebra. Normalmente, numa aquisição se busca as sinergias de negócio. Aqueles cenários não sinérgicos são desativados. O que, duvido, tenha sido este o caso. O pior foi o desinvestimento total na marca Umbro. Nem a tradição salvou a marca do definhamento total. Hoje é o retrato do que já foi um dia.

Jay Barney, uma das mais respeitadas autoridades em Gestão Estratégica, coloca que comprar um negócio e fechá-lo em seguida é uma regra prática pra se obter desempenho superior. Só que este processo deve ser rápido, principalmente quando se trata de matar uma marca. Não foi o caso da Nike com a Umbro. A empresa americana segurou a marca durante meia década, sem investir, mas também não capitalizando rapidamente suas vantagens competitivas. Preferiu “matar” a marca aos poucos, como um parasita, uma célula cancerígena, faz com suas vítimas.

Uma pena assistir essa quase morte da Umbro. Espero que nas mãos do novo proprietário, a Iconix Brands, ela retome um pouco do sucesso e do brand equity que sempre teve, ao lado dos grandes nomes do futebol.

Corinthians: A vitória do Marketing

Baixada a euforia que contagiou o meio da primeira semana de julho de 2012, com a conquista da Libertadores pelo, até então, virgem Corinthians, há tempo de se refletir sobre os fatores que fizeram com que este objetivo tão sonhado fosse alcançado. Como um time saiu de um rebaixamento para a segunda divisão, agora, estar entre os melhores times do mundo? Teria sido só um futebol de qualidade? Não! Há mais um pouco no ar.

E eu tenho certeza de que um fator foi mais que decisivo: MARKETING. O mais puro marketing de relacionamento. Vamos discorrer sobre o tema, trazendo os aspectos históricos:

Dezembro de 2007 – No dia 2, o clube alcança o seu pior momento em mais de 100 anos de história. Rebaixamento para a segunda divisão, após empate com o Grêmio, no Olímpico. O clamor popular era grande, as piadas com a imagem do clube estavam iniciando. Assim como muitas empresas fazem, quando a situação fica quase insuportável chega a hora de se mexer.

Vendo a atitude extremamente positiva com que os torcedores levaram a situação, apoiando o time até o fim, surgiu a oportunidade mais barata e efetiva que muitos empresários não se deram conta: Marketing de Relacionamento. O puro e simples Marketing de Relacionamento. Um grito ecoava nas arquibancadas, capitaneado pela Gaviões da Fiel, mesmo nos momentos mais difíceis: “Eu nunca vou te abandonar…”. Foi a deixa para uma campanha vitoriosa. O lançamento, foi no dia 11 de dezembro, poucos dias depois do fatídico momento do rebaixamento. Luiz Paulo Rosemberg, vice de marketing, deu a áurea declaração: “Acredito que todo corintiano está sensibilizado com este momento, mas a força da nossa torcida irá nos ajudar. A idéia da pulseira demonstra o orgulho e o compromisso de ser corintiano e não vamos tirá-la até o clube sair desta situação”. Batizada com a participação de Sabrina Sato, a campanha utilizou a venda de camisas pretas com a frase-tema na frente, uma pulseira e um adesivo, tudo por R$ 44,90. Resultado: Em 10 dias, foram vendidos mais de 30 mil kits. Ao todo, foram mais de 100 mil kits vendidos. Sucesso total.

Primeiro Semestre de 2008 – O ano do Corinthians na segunda divisão, agora com o novo técnico Mano Menezes, começou com uma mirabolante e controversa idéia. Com os corintianos “empolgados” em um ano que qualquer torcedor gostaria de apagar da história, foi criada a camisa roxa! Roxa como o amor de qualquer torcedor pelo seu time do coração. Foi um sucesso como seria em qualquer torcida, mesmo com as piadinhas de todo mundo dos outros times paulistas. Até abril, a camisa nova já havia vendido quase 100 mil unidades. O que forçou a Nike a aceitar uma renegociação agressiva dos royalties das camisas, adicionando quase 6 milhões de reais a mais nos cofres do clube no ano.

Segundo Semestre de 2008 – Foi nessa época, que surgiu o canto “Bando de Loucos”, capitalizado na hora pelo clube, com  lançamento de camisas. Estas ações foram institucionalizando aspectos que eram oficiosos do clube. Outro exemplo foi meio que a “oficialização” do gavião como mascote, agora incorporado nas mídias oficiais do clube. Com um ótimo esquema de venda de ingressos e a construção deste que é um dos melhores programas de Sócio-Torcedor (Fiel Torcedor) do país, na atualidade, o Corinthians viu sua torcida participando ainda mais. A coroação do ano foi com o acesso à Série A, simbolizada com a ideia (não tão de bom gosto, é verdade, mas eficaz), de vender espaço na camisa para que o torcedor colocasse sua própria foto. A conhecida “camisa dos presidiários” rendeu bons frutos aos cofres do clube.

Ano 2009 – Uma palavra resume este ano: Ronaldo. O torcedor do clube sempre foi carente de um grande ídolo, daqueles que tinham identidade com o clube e era lembrado por esta identidade. Com a “louca” contratação do Ronaldo, como disse o próprio Andrés Sanchez, a marca Corinthians deu um salto de percepção e de posicionamento como “time grande”, o que já era popularmente, mas ainda não internacionalmente, de forma completa. Pegando carona, foram lançados um filme, fotolivro e a TV do clube via internet. Lucros destas pequenas ações chegaram à casa dos R$ 4 milhões. Com a vitória na Copa do Brasil, o clube ofereceu aos torcedores a satisfação de um título nacional e curto espaço de tempo.

Ano 2010 – Com o clube forte e, consequentemente, com os torcedores se aproximando do mesmo em números astronômicos, 2010 foi o ano do licenciamento no clube, onde centenas de produtos com a marca do clube foram lançados. Com isso, a loja “Todo Poderoso Timão” (foto) se tornou a segunda franquia mais lucrativa do ano. Aproveitando a deixa do centenário, o clube faturou com mais de  R$ 170 milhões, um recorde para o Brasil. Com ações de marketing inovadoras e criativas (como o Cruzeiro do Centenário, por exemplo), no decorrer do ano, o Timão deu show, quebrou paradigmas e se tornou numa máquina de fazer dinheiro. Na internet, a imagem se consolidou com forte presença nas redes sociais.

Mas é uma página a parte a sensacional campanha “República Popular do Corinthians”. Lançada em parceria com a Nike, foi fundado um país, onde cada corinthiano podia se registrar e ter acesso a produtos especiais. Uma sacada fenomenal! É mais fácil explicar seu sucesso, vendo o vídeo abaixo. Ah… A campanha saiu vitoriosa em Cannes e virou case internacional de marketing esportivo.

Ano 2011 – A palavra de ordem era Internacionalização da Marca. O Itaquerão como abertura da copa deu visibilidade. Além disso, veio a contratação do chinês Zhizao (que acabou não dando em nada). O projeto Libertadores voltou com todo o fôlego, culminando com a conquista relativamente fácil do Campeonato Brasileiro. A campanha “Vivemos de Corinthians” deu o tom emocional que faltava à relação extraordinária com os torcedores. Mais uma vez, recordes de arrecadação foram batidos (R$ 50 milhões só com patrocínio no uniforme), o que elevou o valor de marca do clube à R$ 174 milhões.

As ações de marketing, ao longo destes anos, levaram um clube que tinha apelo popular, mas com uma marca arranhada e hostil, a ser um exemplo a ser seguido. Volto a falar que o sucesso foi um sucesso de marketing, profundamente arraigadas na sua abordagem relacional. Este investimento trouxe receitas para o clube, que pode investir ainda mais e trazer melhores jogadores, investir em estrutura e, por fim, alcançar títulos! As estratégias mexeram com variáveis indispensáveis para o sucesso do marketing de relacionamento: Confiança do Consumidor, com o clube valorizando a torcida (clientes) em todos os momentos; Comprometimento, com as ações de ligação e relacionamento; Percepção de Valor; e Satisfação do Consumidor, com os indispensáveis títulos. Como disse o próprio Rosemberg:  “Ganhar título é ótimo, mas o nível de felicidade, autoestima e orgulho que temos hoje, nunca tivemos. Vamos reforçar esse sentimento. Se eu fosse esperto eu saia agora, porque não dá para melhorar”. Um verdadeiro show. Show de marketing!

Deixo-vos com o mais recente vídeo feito em homenagem aos “guerreiros” vitoriosos na Libertadores:

E aí curtiu? Mesmo se você não torce pro Corinthians, há de convir que é um sensacional caso de sucesso. Eu também não sou corintiano, mas me rendo. Queria que todo esse profissionalismo tivesse acontecido com o meu time! Parabéns ao Departamento de Marketing do Corinthians, que, ao meu ver, foi um dos grandes (se não o grande) responsável pela grande virada que o clube conseguiu.