Marketing em Angola #2 – Brasil Além-Mar

Continuando a série “Marketing em Angola”, onde falo das minhas impressões sobre o lugar onde passei o mês de setembro/2014. Este post fala sobre como o angolano enxerga o Brasil e como as empresas brasileiras aproveitam isto.


Sede da Record Angola, no bairro da Talatona

Sede da Record Angola, no bairro da Talatona

Definitivamente, Angola ama o Brasil. Somos realmente irmãos de colonização desses africanos. Várias coisas fazem com que eles tenham este carinho para conosco, a começar pelo consumo de cultura nacional. E o principal ponto é a televisão.

Angola não possui TV aberta, como no Brasil. A TV a Cabo tem o mercado disputado pela DSTV e pela ZAP. Em ambas, os canais brasileiros internacionais estão entre os mais assistidos. Em destaque Globo, Record, Band e alguns programas do SBT que são transmitidos por outros canais. Então, tudo é visto por lá! Novelas, jornais, programas de auditório… Angola já teve o maior mercado a céu-aberto do mundo (desativado fazem vários anos), chamado “Roque Santeiro”, tamanho o sucesso da novela global por lá.

Mas em Angola a Globo não é mais soberana. Pelo contrário: a Record está mais no coração do angolano. Rodrigo Faro, Ana Hickman, são muito conhecidos, queridos e respeitados em Angola. Até as novelas da Record estão sendo vistas como mais empolgantes do que as da Globo. Este cenário faz entender o investimento da Record no país, onde eles têm uma sub-sede e diversas propagandas espalhadas por Luanda.


Cultura Brasileira

Enfim, a TV levou a cultura brasileira para Angola. Eles sabem tudo sobre o país luso-irmão. Alguns pontos:

1. O angolano enxerga o Brasil como país violento (potencializado pelos programas policiais). A morte de uma universitária angolana no Rio de Janeiro teve repercussão nacional por lá.
2. Música brasileira é uma das líderes de “audiência”. As rádios tocam demais a música nacional. Destacam-se: Banda Calypso, tida como a “banda brasileira mais querida dos angolanos”, Ivete Sangalo, Michel Telo (assim mesmo, sem acento). Mas ouvi de tudo, desde Roberto Carlos à Roberta Miranda. Afinal, todos os cantores famosos do país estão nos programas muito assistidos.
3. Fiquei impressionado com o tanto de torcedores do Flamengo (pelo menos usando a camisa do time) em Luanda! Praticamente vi uma camisa por dia durante a minha estadia por lá.

Marcas Brasileiras

Muitas são as empresas brasileiras que estão em Angola. Como disse num post anterior, nenhuma se compara à Odebrecht, que tem mais de 30 mil funcionários e é o maior empregador privado do país. A empresa comemorou recentemente 30 anos de Angola, com ampla comunicação. Outras construtoras e incorporadoras, como a Queiroz Galvão, estão presentes e muito bem divulgadas no país.

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Loja das Havaianas no Belas Shopping

Passeando por Luanda, você percebe claramente uma das marcas brasileiras famosas no mundo todo. As “legítimas” Havaianas estão por toda a parte. Como indicador do sucesso, já há as “piratas” também.

Restaurante Bob's Burger no Belas Shopping

Restaurante Bob’s Burger no Belas Shopping

Aí entra em ação várias franquias de marcas brasileiras. Num país com poucas empresas de fast food (o KFC é uma das poucas marcas que estão no país), é interessante ter uma marca brasileira tão destacada. No principal shopping do país, o Bob’s reina soberano nos burgers e nos sorvetes e similares.

Quiosque de "O Boticário" no Belas Shopping

Quiosque de “O Boticário” no Belas Shopping

A rede FISK, escola de idiomas, tem uma operação legal também em Angola. Já estão por lá fazem alguns anos e o franqueador é brasileiro. O Boticário também está presente, com cinco lojas e uma perspectiva de crescimento muito grande, segundo o gestor internacional da marca. Outras empresas atuam por lá, como por exemplo Mundo Verde, Sapataria do Futuro, Mister Sheik, Green Moda Infantil e Livraria Nobel.


O potencial do mercado angolano deve ser olhado com muito carinho por gestores que desejam internacionalizar operações de empresas do Brasil. É um país que ama o nosso e que vê com muito carinho aquilo que temos aqui. Vale a pena pensar com carinho esta possibilidade.

Marketing em Angola #1 – Ambiente de Marketing

Quem me acompanha além do blog, principalmente pelas mídias sociais, sabe que este mês tenho tido a grata satisfação de conhecer um novo continente (África) e um novo país. Desembarquei em Angola numa missão de “espalhar o marketing”, através de aulas para o curso de Mestrado em Gestão da Faculdade de Economia da Universidade Agostinho Neto, maior instituição universitária do país, numa parceria com o Núcleo de Pós-Graduação em Administração da UFBA. Assim, tenho passado essas semanas conhecendo o país de uma forma mais imersa na realidade cultural e social, não fazendo os célebres passeios turísticos que a gente encontra nos roteiros oficiais. O que tem me dado subsídios para uma boa análise da economia, do comércio e dos serviços do país, bem como também para as aulas e pesquisas que realizamos na universidade.


Neste primeiro post, gostaria de compartilhar um pouco do que tenho visto no país, enfatizando as diferenças para o Brasil, nestes cenários citados.

Generalidades

Baía de Luanda, Avenida Marginal. E, ao fundo, as inúmeras gruas.

Angola é um país que está em construção. Luanda e cidades circunvizinhas são um canteiro de obras. Fiquei impressionado com a quantidade de gruas de construção civil espalhadas pela cidade. Isso indica o porque que grandes empreiteiras brasileiras atuando no país, com destaque para a Odebrecht, com mais de 30 anos no país. A empresa baiana agora diversifica seus negócios em Angola, investindo também em agroindústria, petróleo, gás e mineração. De longe, é a empresa que mais emprega no país, com mais de 24 mil empregados, perdendo apenas para os cargos públicos. Fica clara a importância da Odebrecht para Angola e ela não se cansa de demonstrar isso, através de campanha publicitária enfatizando a ligação emocional entre o povo angolano e a empresa.

Uma coisa que ainda também está “em construção” é a própria vida urbana. Fiquei espantado com a quantidade de lixo nas ruas, principalmente nos bairros mais populares, em localidades como Benfica, Samba e outros pontos famosos de Luanda. As autoridades estão preocupadas, pois vejo uma campanha social forte sobre o tema, tanto nas ruas, quanto no rádio. Mas ainda é uma questão cultural e vejo que será um trabalho de geração(ões).

Os “Candongueiros”

Os engarrafamentos são gigantescos e, na hora do rush, pioram consideravelmente. Estou hospedado na Cidade do Kilamba, distante 40km do centro de Luanda. Num dia ruim, levo 1h40 para chegar ao destino. É interessante que há diversos motivos para o trânsito parar, num ar de civilidade urbana que não vemos no Brasil. Uma pessoa atravessando uma passadeira (faixa de pedestres) pode parar o tráfego inclusive da via expressa. O entrar e saltar de passageiros das incontáveis “candongas” (o transporte público todo é realizado por essas vans, normalmente da Toyota, pintadas de azul e branco), também prejudica muito a fluidez do trânsito.

A comida é ótima. Achei muito parecida com a comida do norte do Brasil. Os pratos típicos como o Funge e a Muamba, me lembraram dos tucupis e tacacás da vida. Os angolanos poderiam trabalhar melhor com isso, pois tais comidas típicas não são tão facilmente encontradas por um turista, por exemplo, a não ser que seja em locais onde paira a dúvida sobre a higiene.

Falando nisso, creio que há de se fazer um trabalho muito grande sobre a questão do turismo, principalmente para o estrangeiro. Vejo um potencial tremendo para o turismo a nível internacional. Angola ainda é um “gigante adormecido” nesse ponto, e creio que, mesmo sendo um destino conhecido, pode-se fazer muito mais. Exemplos africanos, como o da vizinha Namíbia e da África do Sul, podem ser usados como benchmarking.

Povo

O povo angolano é demais. Povo legal, hospitaleiro, que adora cumprimentar e bater um bom papo. Sentem-se muito próximos aos brasileiros, o que fez eu ser mais bem tratado ainda! Fazem você se sentir em casa.

Adoram futebol. Além dos times locais (destaque para o Petro de Luanda e o 1º de Agosto), acompanham MUITO o futebol europeu. Sabem tudo da galera de lá. Do Brasil, não acompanham muito, mas fiquei impressionado com o número de camisas do Flamengo que vi aqui! Disparadamente maior do que qualquer outro time (com exceção do 1º de Agosto), inclusive da Europa!

Angolanas e seus lindos cabelos

O povo é muito estiloso! Adoram se vestir bem e de forma bem singular, única. As mulheres são um caso a parte. Como são estilosas! Em tudo! Dou destaque para os cabelos das mulheres. Diferente do que vejo no Brasil, as mulheres aqui tem infinitos (infinitos mesmo!) modelos de cortes, penteados, cores, jeitos. É simplesmente lindo e sensacional! E a roupa é relativamente barata (falo disso num próximo post).

Gostam muito de festas. Nisso se parecem bem com o povo da Bahia! No horário nobre da televisão, os comerciais são quase que na sua totalidade, de eventos sociais, festas, baladas ou produtos ligados a isto. Realmente são apaixonados pela diversão, e diversão em conjunto.

Sociedade

É fácil perceber que há um gap de classes sociais em Angola. Há localidades e pessoas muito pobres e gente muito (mas muito mesmo!) rica. É perceptível isso ao passar por bairros diversos. Andar por Talatona é como andar em qualquer cidade moderna do mundo, com prédios e casas de alto padrão e de muito bom gosto (lá se encontra o Belas Shopping, grande shopping da capital). Já em outras localidades, vê-se os ambulantes aos montes (falarei deles em outro post), casas de baixa qualidade e dezenas de ruas sem asfalto, fazendo com que a poeira amarelada impere sobre boa parte da cidade.

Há um ranço com os portugueses, chamados “carinhosamente” de portugas. E estes andam sempre meio prepotentes pela rua. Vi muito pouco portugueses e angolanos em momentos de descontração. Há uma desconfiança também com os chineses, que tem invadido o país para gerenciar grandes projetos de construção civil, como a Cidade do Kilamba.

Numa aula onde apresentava os dados de classes sociais brasileiras, meus alunos falaram que o que ganha um cidadão de classe A2 no Brasil (acima de R$ 10 mil/mês) é classe B em Angola (não vi dados oficiais de Angola). Entendi a fama de Luanda ser uma cidade cara.

Carros

Trânsito em Luanda. Me impressionou a quantidade de carros que no Brasil são de alto padrão.

Aqui tem muitos carros. Angolanos adoram carros, talvez num nível maior do que o brasileiro. Adoram mexer nos carros (e que carrões!), deixá-los sempre brilhando e tinindo (o que é um desafio enorme, pelo tamanho de poeira que existe aqui). Mas pela intensa falta de água, lavam os carros sempre com um baldezinho de água (precisamos aprender com eles).

E, diferente do Brasil, o mercado angolano é dominado pela Hyundai. O que mais se vê aqui é Elantra (inclusive inúmeros taxis), carro considerado caro no Brasil. Além disso, a montadora coreana tem modelos não existentes no Brasil, como o i10, i20 e Accent, além do i30, Tucson (o nosso ix35), Sonata, Azera, SantaFé, VeraCruz e Veloster. Também se vê muitos carros da Kia (Rio e  Sportage se vê aos montes). Renault também tem uma parcela importante do mercado (Logan merece destaque, além da grande presença do Sandero e do Duster). Suzuki se especializou em carros populares, por isso também é vista aos montes. Nissan também. Toyota, só para carros grandes como Hilux, Fortuner (a nossa SW4) e Land Cruiser (inexistente no Brasil). Ford, só pickups grandes. Fiat, não vi nenhum. Volkswagen, só vi Touareg. Chevrolet só carros mais baratos (com exceção da Captiva), como Sonic. Além de ver de forma muito mais presente aqui do que no Brasil, marcas como Jeep (Grand Cherokee), Lexus, Porsche e Jaguar, por exemplo.

Os carros são mais baratos, relativamente, do que no Brasil. Um Kia Sportage 0km é facilmente comprado em Angola, à vista, por US$ 35mil. Elantra, US$ 26mil. Logan (fabricado no Brasil), US$ 18mil. Isso tudo em um país que não tem nenhuma fábrica de automóveis. A grande maioria dos carros são provenientes de importações via Dubai, localidade com vôos diretos de Luanda por mais de uma empresa aérea, e que tem se tornado um ponto de visita grande para os angolanos, inclusive de classe média.

Outros pontos

Para as empresas e para o povo comum, Angola conseguiu um limiar entre a burocracia e o “deixa pra lá”. Para algumas coisas, como abertura de empresas, há burocracias extremas, o que faz com que muita gente tenha negócios não regulares ou não registrados. E que também não tem grande fiscalização. Questões relativas à receita e arrecadação de impostos também são aparentemente maleáveis (segundo meus alunos, é para manter as possibilidades de corrupção mais tranquilas). Mas se você é pego, há complicações muito fortes.

Similar ao Brasil, as filas são homéricas. Testemunhei algumas bem grandes por aqui.

Nunca vi um lugar com tantos bancos! É impressionante o número de marcas e o número de agências. Falarei disso, com mais detalhes, em um próximo post.


Enfim, estas são as primeiras impressões do Ambiente de Marketing angolano. Qualquer empresa que aqui quiser se instalar, tem que passar por estas questões culturais e sociais, base do estudo ambiental de Marketing em qualquer localidade. Claro que vai muito além do que coloquei. Mas como disse, estes são meus destaques.

Tenho cada vez mais me impressionado positivamente com o país. Clima agradável e pessoas maravilhosas. Mas as questões de marketing, bem como de administração como um todo, ainda são bem incidentais e precárias. Há de se fazer um enorme trabalho por aqui e fico feliz de estar presente neste momento.

No próximo post, falo um pouco sobre a relação Brasil x Angola, incluindo as questões comerciais e de marketing.

Kotler e os novos desafios do Marketing

Neste post temos o privilégio de ler um texto escrito pelo Prof. Dr. Antônio Carlos Giuliani, grande mestre e amigo, meu orientador do mestrado em Marketing e Estratégia na UNIMEP-SP. Reproduzido com autorização (agradeço muito, mestre!), o texto versa sobre a participação do Dr. Giuliani no HSM New Leaders realizado em São Paulo, mais particularmente numa palestra do “papa do marketing”, amado por uns, odiado por outros, Philip Kotler.

Originalmente publicado no Jornal de Piracicaba, em 06/09/2014


Tive o prazer de participar essa semana, do maior evento de marketing do ano realizado pela HSM New Leaders, no Word Trade Center, com a autoridade mundial em Marketing, professor Philip Kotler, possui mais de 50 livros lançados sobre o tema e suas variações. Enumero alguns pontos importantes abordados como contribuição.

A gestão do novo marketing exige dos profissionais, compreender como enfrentar os desafios globais a hipercompetição entre China e Índia, construir sua organização voltada para o marketing, consiste em saber definir o diretor de marketing ou o seu CMO – Chief Marketing Officer, adequado para dialogar com ciclos de vida mais curtos de produtos e empresas, ter clareza de que seu papel concentra-se na elaboração do plano de crescimento futuro da empresa, passar do marketing tradicional para o digital; adotar o marketing 3.0 e a responsabilidade socioambiental empresarial. O poder está passando para os compradores, 58% dos consumidores hoje, pesquisa produtos online antes de comprar, 79% dos consumidores afirmam usar um smartphone para ajudar nas compras, atenção para uso do mobile marketing, os compradores do mercado B2B business to business já não querem nem mais ver vendedores pela frente.

O mercado hoje, exige um processo de gestão de marketing pautado em planejar investimentos de marketing, criação de modelos de demanda, gerenciar os recursos de marketing, executar a gestão de campanhas, de leads, de eventos, da fidelidade, de mídias e mensurar o retorno sobre os investimentos em marketing. A marca precisa tocar o sentimento das pessoas, causar boa impressão, utilizar os canais tradicionais e digitais, para ressaltar o motivo que faz de seu produto melhor que os da concorrência. Cada vez mais sua empresa, marca, será avaliada pela responsabilidade socioambiental empresarial, certifique-se do cumprimento da legislação ambiental, da produção de produtos melhores, com menos impacto no meio ambiente, focar todas as fases do desenvolvimento de produtos, desde a pesquisa e desenvolvimento, até marketing e vendas . Toda empresa deve estabelecer uma relação com a sociedade, pautada, no que é bom para a sociedade é bom para as empresas, ou seja, deve descobrir como melhorar não só sua produção, mas também seus resultados.

As estratégias tradicionais de marketing, proporcionam retorno cada vez menores, buscar a inovação, torna-se vital para o sucesso com mais concorrentes, surgem dificuldades para capturar um volume elevado do mercado, de modo que um novo participante tende a se mover para um nicho de mercado, sua empresa precisa conciliar marketing e inovação, ambos produzem resultados. A inovação não é natural numa empresa, é mais natural continuar fazendo a mesma coisa, ou tentar aumentar a eficiência, em vez de buscar coisas novas para fazer. Parafraseando Kotler, muitas inovações falham, mas companhias que não inovam morrem. Não crie vendas, procure estabelecer relações com seus consumidores, é preciso mudar do marketing de transação para o de relacionamento, as empresas precisam focar em fazer mais pelo consumidor.

Repensar a distribuição de verbas nas mídias e aumentar sua presença online é imprescindível. Para Kotler, num futuro próximo, as verbas de mídias ficarão divididas entre, 50% para mídias digitais e 50% nas chamadas velhas mídias. As lojas terão de repensar sua razão de ser, o varejo se transforma rapidamente se possui uma loja física, é preciso alinhar sua logística com compras online, é afirmativo que as lojas físicas não desaparecerão, mas precisam ser reinventadas para se tornarem atrativas, para justificar o tempo e a preferência de comprar em uma loja física, em detrimento da comodidade em comprar online.

Kotler ressalta também a importância do Brasil para os negócios da América Latina, a globalização afeta o Brasil, pois, muitos produtos estão vindo de fora com preços mais baixos e competindo com os nacionais. Para contornar isso, é preciso que o Brasil trabalhe com seus vizinhos, ele deve ser o líder da América Latina, o professor afirma que nosso país precisa ter mais responsabilidades do que ser um país bem sucedido. O Brasil deve ajudar outros países, e expandir suas marcas para toda a América Latina. Aponta que podemos vender nossos produtos para Europa e na Ásia, mas, o nosso consumidor natural está mais próximo, e são nossos vizinhos.

Sua exposição convidou a todos os participantes à um repensar do verdadeiro conceito de marketing, das novas tarefas e desafios de um diretor de marketing, e do papel de focar no marketing holístico interno, integrado relacionamento e socialmente responsável, não podendo ser apenas um departamento, cujos recursos são utilizados por Vendas e por outros departamentos, conforme necessários e de forma desordenada. Encerra sua brilhante exposição com a seguinte frase para reflexão: “Se, daqui a cinco anos, você estiver no mesmo ramo em que está hoje, seu negócio não existirá mais”.

Antonio Carlos Giuliani é professor e coordenador dos cursos de Mestrado Profissional e Doutorado em Administração e MBA em Marketing e Negociação da UNIMEP-SP. Site: Conversando sobre Marketing – http://giulianimarketing.blogspot.com

Quando a confiança também cai

Nunca foi tão forte a necessidade dos profissionais de marketing de estarem ligados no ambiente externo de marketing. Particularmente nos aspectos psicológicos do seu consumidor. E quando há um problema na prestação de serviço que não há efetiva certeza de que a culpa vem da empresa? A situação é bem complicada.
Como deve ser difícil ser atualmente um dos gerentes da Malaysia Airlines. O pior para a imagem de uma companhia aérea, sem sombra de dúvidas, são acidentes fatais. Imagine agora, num período menor que seis meses, dois aviões da sua empresa caem em circunstâncias altamente misteriosas. Uma onde ninguém nem sabe onde o avião caiu, outra que, por uma decisão infeliz, o avião acabou sendo abatido por separatistas ucranianos. Como explicar isso para o público consumidor?

Parece que não está dando certo. Há alguns dias, a Malaysia Airlines noticiou uma queda de 33% no número de reservas no mês de julho, o que ocasionou o prejuízo recorde de 73 milhões de euros. Fontes indicam uma demissão em massa (mais de 4 mil funcionários) da empresa controlada pelo fundo de riqueza soberana Khazanah Nasional, além da eliminação de rotas, o que promoverá diminuição considerável do número de vôos. O governo da Malásia está interferindo diretamente no que deve ser a pior derrocada de uma companhia aérea da história. Dados mostram que a empresa está operando com um déficit de US$ 2,16 milhões por dia no seu caixa, tendo prejuízos diários na casa de US$ 1,6 milhão.

A crise da Malaysia Airlines é, acima de tudo, uma crise de marketing. Detalhadamente, uma crise de confiança. Este é um dos pontos importantes, em se tratando de relacionamento com o consumidor, tido como um dos principais benefícios existentes em uma relação comprador-vendedor em busca da retenção. Este busca uma empresa/marca na qual pode dar credibilidade, segurança e responsividade. Como ter confiança em um prestador de serviço que apresenta severas vulnerabilidades e, que neste caso, pode levar à morte do cliente ou de parente deste? Sem dúvida uma situação complicadíssima. Nem a diminuição dos preços está funcionando. Uma viagem de Kuala Lumpur para Pequim, como o do vôo MH370 que sumiu, que na época custava mais de US$ 500,00, hoje pode ser comprada por US$ 238,00.

O irônico é que um dos alicerces da confiança do consumidor em serviços foi justamente melhor entendido e estudado no mercado de aviação civil. Jan Carlzon, executivo chefe da Scandinavian Airlines, a SAS, empoderou o seu grupo e fez com que a experiência aérea da companhia fosse diferenciada. O que ficou conhecido como “Momentos da Verdade” e acabou gerando um livro que virou um dos clássicos do marketing, com status pop management. Este blog já fez uma resenha do livro, que você pode ver clicando aqui.

Mensagens e fotos postados nas mídias sociais pelos passageiros nos vôos demonstram um sentimento que se resume em pura falta de confiança. Confira algumas:

A crise de confiança não está afetando só os passageiros. Os próprios agentes de viagem de todo o mundo estão recomendando menos a companhia, que aumentou o repasse de 6% do bilhete para 11%. Não está dando certo.

Acima de tudo, o trabalho que a empresa tem que fazer, junto com a urgência de se fazer caixa, é gerenciar melhor sua marca, que vem tendo seu brand equity intensamente diminuído pela crise de confiança. O trabalho é, acima de tudo, psicológico. Mas também racional, mostrando que os acidentes são ínfimos, se comparados com o passado sólido da companhia, que inclusive está na lista das melhores do mundo. Não se apaga incidentes como este, é óbvio. Mas este também é um trabalho de marketing. O luto deve ser respeitado, mas aos poucos a marca deve ser reestruturada.

Com informações de Mashable.com e News.com.au.

“Tudo com a Paçoca”

O amor é uma coisa difícil de explicar. E quando nós vemos o “amor” que determinadas pessoas tem por marcas, parece ainda mais difícil explicar. Não para o marketing…

A Paçoquita, marca da empresa Santa Helena, líder do mercado nacional de doces e confeitos à base de amendoim, também é a mais antiga e mais lembrada marca de paçoca do país. Possui legiões de fãs e virou até sinônimo de coisa barata mas que cumpre seu papel. Tem presença em quase todo território nacional e conseguiu a proeza de ser conhecida e admirada por pessoas de todas as idades. Acabou se tornando uma espécie de “BomBril” ou “Friboi” dos doces de amendoim, um sinônimo de produto de alto padrão dentro de um mercado commoditizado.

Só por tal cenário, já poderíamos incluir a Paçoquita como um case de sucesso brazuca, na questão de comprometimento emocional dos consumidores para com uma marca relevante. Mas a Santa Helena foi adiante. Muito provavelmente percebendo o nível de atitude positiva para com a sua marca de paçocas, “leu” o seu mercado consumidor e criou um produto, acima de tudo, empolgante: a Paçoquita Cremosa.

Vídeos pululavam na internet sobre como fazer uma espécie de “Peanut Butter” de paçoca, com as mais diversas receitas, mas sempre usando a Paçoquita como ingrediente principal. E não é que a Santa Helena captou a mensagem? Com o apelo quase sem intenção do público, a marca fez o dever de casa de todo profissional de marketing que tem um produto estabelecido na área de maturidade no seu ciclo de vida: criou uma outra forma de utilização do mesmo.

Unindo isso a um brand equity mais que favorável, só restava para a marca montar uma estratégia que valorizasse os aspectos de um bom relacionamento de marketing: qualidade percebida, confiança do consumidor, comprometimento afetivo e emocional, além de uma comunicação efetiva. O resultado não poderia ser mais perfeito: a Paçoquita Cremosa se tornou um fenômeno em seu lançamento na primeira semana de julho de 2014. O que motivou a campanha “Caça ao Tesouro”, dando um ar de lenda urbana para o produto, incitando ainda mais o público a tentar encontrar o danado. Até um fã fez um site onde, dentro de uma janela do Google Maps, se indicava os locais onde o produto foi visto sendo vendido. Que loucura!

A inundação que rolou sobre o tema nas mídias sociais nas semanas seguintes foi estarrecedora. Era muita gente mesmo falando sobre o produto. Digo que vi poucas coisas parecidas, em se tratando de um bem de consumo, com o burburinho que gerou o produto desde o seu lançamento. Foi muito legal de se ver. Em tempo: diferente do que se pode pensar, ao indicar que paçoca é um doce para gente mais velha, o maior engajamento nas mídias sociais da Paçoquita é do público entre 13 e 17 anos. Ponto pra ela!

A Paçoquita ganhou o rótulo de “Nutella Brasileiro”, numa clara menção ao doce de avelã que é sinônimo de iguaria superior. Não tenho dúvida de que a Santa Helena vai continuar surfando nesta nova onda e não deixará a peteca cair, em se tratando de valorizar ainda mais o vínculo emocional do público com seu produto. Podemos dizer que a Paçoquita está seguindo os passos das grandes marcas ao tratar o consumidor mais como um parceiro do que um simples cliente.

A gerente de marketing da marca, Luciana Persoli, indica que o objetivo do produto é de estar cada vez mais presente na vida do brasileiro. Não tenho dúvidas de que vai conseguir. Paçoquita Cremosa está estabelecendo uma lovemark no Brasil. Acredito que, assim como diz o nome das contas oficiais da marca no Twitter e no YouTube (Amo Paçoquita), vamos continuar amando a Paçoquita! E não estou falando simplesmente do produto…


Algumas menções na mídia:

FOLHA DE S.PAULO – Paçoquita Cremosa vira febre nas redes sociais e gera filas
EXAME – Por que você não acha Paçoquita Cremosa no seu supermercado
EXTRA – Busca por Paçoquita Cremosa vira ‘caça ao tesouro’
BUZFEED – Tudo que você quer saber sobre Paçoquita Cremosa / Homem consegue comprar Paçoquita Cremosa e faz unboxing no Twitter (ESTE EU RECOMENDO DEMAIS)


Ainda não experimentei a Paçoquita Cremosa… alguma dúvida de que aguardo ansiosamente?rs… Chega logo na Bahia!!!!